A demissão a pedido do ex-secretário da Casa Civil, Mauro Carvalho — conhecido pelo apelido de “Maurinho” —, ganhou contornos de pura encenação ao tentar transformar uma crise política decorrente de graves investigações em um ato de martírio religioso. Alvo das apurações da Operação Herodes, da Polícia Federal, que investiga o suposto desvio de mais de R$ 308 milhões no acordo selado entre o Governo de Mato Grosso e a operadora Oi, Maurinho cedeu à pressão e entregou o cargo. Contudo, ao invés de responder com sobriedade técnica e transparência sobre os bilionários interesses públicos em jogo, preferiu apelar para uma audaciosa metáfora bíblica, comparando-se a Jesus Cristo ao insinuar que estaria sendo vítima de uma condenação injusta motivada por pressões externas.
O mal-ajambrado malabarismo retórico, porém, desmorona diante do contraste com a própria realidade material do ex-homem forte do governo. Enquanto a figura de Jesus Cristo é historicamente associada ao desapego e à simplicidade — com a célebre máxima de que seu reino não pertence a este mundo —, Maurinho ficou nacionalmente conhecido por sua mansão avaliada em mais de R$ 80 milhões em um condomínio fechado de altíssimo padrão em Cuiabá. A construção do imóvel ocorreu justamente durante o período em que ele esteve à frente da Casa Civil no primeiro mandato do então governador Mauro Mendes, entre 2019 e 2022. Ao tentar vestir a veste do injustiçado e se desvencilhar dos holofotes do esquema milionário sob investigação da PF, o ex-secretário assina uma saída melancólica que flerta com a soberba, deixando a população estarrecida com o abismo entre o discurso do “mártir” e a opulência de sua vida real.






















